Quando começa
a aprendizagem?
Estudos recentes apontam a vida intrauterina como um importante período
de desenvolvimento cognitivo. A aprendizagem, no ventre materno ou fora dele,
ocorreria em estreita interação com os estímulos que provêm do ambiente.
Por: Vera Rita da Costa
Publicado em 20/03/2014 | Atualizado em 20/03/2014
Mais que uma espera para o nascimento, a gravidez começa a ser
reconhecida como importante período que pode influenciar substancialmente a
vida futura, inclusive a aprendizagem. (foto: Gullermo Ossa/ Sxc.hu)
É comum pensarmos que o aprendizado começa quando a criança entra na
escola ou, quando muito, que se inicia com o nascimento. No entanto, pesquisas
das áreas de biologia evolutiva e psicologia cognitiva estão começando a mudar
esse panorama e a estabelecer uma nova visão sobre a importância do período que
passamos no útero.
Muito mais do que uma mera espera para o grande evento que seria o
nascimento, a gravidez começa a ser reconhecida como um importante período em
si mesmo, que pode influenciar substancialmente a nossa vida futura, inclusive
a nossa aprendizagem.
Denominado pelos especialistas ‘origem fetal’, esse novo campo de
conhecimento vem se desenvolvendo rapidamente ao longo dos últimos 20 anos
Denominado pelos especialistas 'origem fetal’, esse novo campo de
conhecimento vem se desenvolvendo rapidamente ao longo dos últimos 20 anos,
sobretudo em relação à área de saúde. Alguns dos resultados obtidos já permitem
relacionar determinadas condições vividas pelo feto a doenças que ocorrerão em
sua vida adulta. A deficiência nutricional, por exemplo, relaciona-se à
ocorrência na vida adulta de problemas como hipertensão, obesidade e
resistência à insulina.
Mas o que dizer em relação à educação? Também para essa área os
resultados de pesquisa e, principalmente, a discussão que se trava no campo da
‘origem fetal’ são interessantes, embora pouco debatidos entre nós. Com base
neles, é possível perceber, por exemplo, que algumas de nossas concepções
precisam mudar, a começar pela nossa ideia de quando deve se iniciar a
aprendizagem.
Também deve mudar a forma como tratamos os recém-nascidos ou as crianças
bem pequenas. Afinal, se a aprendizagem começa ainda quando estamos no útero,
mesmo recém-nascidos já possuiriam um conjunto de conhecimentos sobre o mundo
que deveria ser levado em conta por aqueles responsáveis por dar prosseguimento
e estimular as suas aprendizagens futuras.
Apenas cuidar?
Não caberia mais, portanto, a ideia ainda disseminada entre nós de que
não devemos nos preocupar com o assunto quando se lida com recém-nascidos e
bebês. Ou, ainda, que não é necessária a formação pedagógica (e de qualidade)
para quem lida com essa faixa etária ou trabalha em berçários e creches, pois a
função nesses casos seria apenas ‘cuidar’, não propriamente ensinar.
O que, de fato, os resultados de pesquisa estão nos indicando é algo bem
diferente: somos aprendizes vorazes, sobretudo na infância (e, como estamos nos
dando conta agora, também na vida intrauterina). Mas a aprendizagem, seja no
ventre materno ou fora dele, ocorre em estreita interação e dependência dos estímulos
que provêm do ambiente, incluindo-se aí – e de maneira muito especial – as
pessoas com as quais nos relacionamos nessas fases fundamentais da
aprendizagem.
Em termos de educação há, portanto, lições a se tirar dessas pesquisas,
e uma delas, essencial, é que as aprendizagens na infância podem se tornar mais
adequadas, servindo de incentivo à continuidade da curiosidade e do desejo de
aprender também ao longo da adolescência e da vida adulta. Isso se os
conhecimentos prévios e as predisposições que trazemos da vida intrauterina
forem mais bem conhecidos e compreendidos por pais e profissionais da área.
O que sabemos antes de nascer?
No livro Origens: como os nove meses
anteriores ao nascimento moldam as nossas vidas (Editorial
Presença, 2012), a jornalista especializada em ciência e educação Annie Murphy Paul faz um apanhado dos
resultados de pesquisas realizadas nas últimas duas décadas com o objetivo de
verificar a influência do período de gestação e das condições vividas nos meses
que passamos no útero sobre nossa vida futura, principalmente sobre nossa
saúde, temperamento e aprendizado.
De modo geral, como relata a autora, os resultados mais expressivos
dizem respeito ao desenvolvimento dos órgãos dos sentidos e ao aumento de nossa
capacidade de perceber, organizar e interpretar os estímulos que captamos do
ambiente.
Ao longo do desenvolvimento fetal, relata Paul, os sentidos tornam-se
gradativamente disponíveis, suprindo o cérebro, também em rápido
desenvolvimento, com informações sobre ‘o mundo que nos aguarda’. Essas
informações, por sua vez, consolidam-se como padrões de identificação e decodificação
de estímulos, configurando nossas primeiras memórias e aprendizagens.
Recém-nascidos
reconhecem a voz materna e humana, e demonstram preferência por elas até quando
comparadas a outros sons com propriedades acústicas similares. (foto: Guenter
M. Kirchweger/ Sxc.hu)
O exemplo mais didático e menos distante de nós encontra-se na avidez ou
aversão por certos alimentos. Afinal, praticamente toda família tem um caso
desse tipo para relatar, como o da mãe que consumiu muito suco de melancia na
gravidez e teve um filho ‘viciado’ na bebida ou de outra que teve uma
experiência negativa com peixe na gravidez e encontra aí a justificativa de seu
filho não ‘suportar’ esse tipo de alimento.
O interessante é que essas ideias aparentemente sem sentido ou até tidas
como crendices começam a encontrar respaldo científico e a ser reforçadas por
dados de pesquisas, nas quais se analisam o ritmo e a intensidade da mamada de
recém-nascidos na presença de determinados estímulos ou suas expressões faciais
quando expostos a eles.
Qual a possível explicação científica para essas ocorrências? Segundo pesquisas discutidas por
Annie Murphy Paul em seu livro, a resposta está no fato de cheiros e sabores
serem captados pelo feto e passarem a fazer parte das suas memórias,
principalmente a partir do sétimo mês de gestação, quando as papilas gustativas
e os receptores olfativos já se encontram desenvolvidos. Ao nascer, portanto, é
comum que as crianças demonstrem preferência pelos alimentos consumidos pela
mãe na gravidez.
Ideias aparentemente sem sentido ou até tidas como crendices começam a
encontrar respaldo científico e a ser reforçadas por dados de pesquisas
Ainda mais interessantes são os resultados de estudos obtidos em
dimensões não tão evidentes. Um exemplo está na aquisição de padrões sonoros e
da própria linguagem, que também se iniciariam no período fetal, a partir do
sétimo mês de gravidez, quando a audição humana encontra-se plenamente
funcional.
Como discutem Anthony Decasper e Melanie Spence, das universidades da Carolina
do Norte e do Texas (EUA), a percepção e o processamento do som, ainda no
período intrauterino, são acompanhados pela memorização de padrões sonoros e
pelo desenvolvimento de outras importantes habilidades linguísticas, como a
capacidade de identificar características acústicas e padrões de ênfase e
ritmos. Isso torna o recém-nascido humano capaz de reconhecer e demonstrar
preferência por sons ouvidos na vida intrauterina, como a voz de sua mãe, a sua
língua nativa e trechos de histórias e canções.
Recém-nascidos não hesitam em reconhecer a voz materna e humana, e
demonstram preferência por elas até quando comparadas a outros sons com as
mesmas propriedades acústicas (como a própria fala humana reproduzida de trás
para frente), afirmam Decasper e Spence.
Aprendizes vorazes e supereficientes
Em Bem-vindo ao cérebro do seu filho:
como a mente se desenvolve desde a concepção até a faculdade (Cultrix,
2013), os neurocientistas Sandra Aamodt e Sam Wang também fazem
uma revisão detalhada de como se processa a aprendizagem em diferentes fases da
vida humana e destacam a importância das pesquisas sobre a aprendizagem
adquirida ainda na vida intrauterina.
Segundo Aamodt e Wang, o pensamento mais comum ainda é o de que
recém-nascidos são ‘tábulas rasas’ ou receptores passivos de ensinamentos,
dependendo única e exclusivamente dos conhecimentos que receberão dos adultos
depois de nascer. Mas, de maneira muito diversa disso, os dados de pesquisa têm
revelado que somos aprendizes inatos e supereficientes, “moldados pela
evolução” para interagir e sobreviver em um mundo extremamente desafiante, a
começar pelo ‘mundo’ intrauterino.
Ao nascer, argumentam os autores, podemos não possuir as capacidades
necessárias para expressar nosso conhecimento, mas isso não significa que ele
não exista. Ao contrário, já chegamos ao mundo preparados ou “equipados com um kit
básico de ferramentas”, que inclui habilidades essenciais, entre elas as que
nos permitem, inclusive, investir na própria aprendizagem.
Qual o porquê de tudo isso? Por que aprender ainda no útero? A
resposta, nesse caso, vem da biologia evolutiva.
Como discute Annie Murphy Paul em seu livro, quando um feto capta,
processa e memoriza estímulos ou padrões ainda no útero materno, ele está,
mesmo que indiretamente, captando e processando informações também sobre o
ambiente onde nascerá. Em outras palavras, está se antecipando e se preparando
para o mundo em que viverá.
“Todos nós aprendemos sobre o mundo antes mesmo de fazermos parte dele”,
diz Paul. Não somos inertes ou passivos, mas criaturas ativas, dinâmicas e
muito flexíveis, capazes de responder e nos adaptarmos a diferentes condições
que se apresentem.
Os efeitos da
desnutrição sobre 40 mil fetos cujas mães passaram o ‘inverno da fome’, durante
a Segunda Guerra Mundial, foram notados imediatamente e também décadas depois.
(foto: Bill Davenport/ Sxc.hu)
Nossas mães, por sua vez, são nossas primeiras professoras ou
informantes. Sem necessariamente ter consciência disso, elas estão, durante a
gestação, nos passando informações e ensinando sobre o mundo em que nasceremos
– por exemplo, sobre o que está disponível e é seguro comer; qual a língua
falada em nossa comunidade ou quem é ela ou o cuidador em quem podemos confiar.
Esse tipo de aprendizagem, explica a autora, auxilia na sobrevivência do
recém-nascido. Ao reconhecer e responder melhor à voz ou a língua materna, por
exemplo, um feto amplia a sua ligação com a pessoa que cuidará dele. Ou, ainda,
ao antecipar-se na memorização de gostos e sabores e estabelecer precocemente
preferências e aversões alimentares, poderá evitar alimentos nocivos ou buscar
com mais avidez aqueles de que necessitará quando recém-nascido.
Sem necessariamente ter consciência disso, nossas mães estão, durante a
gestação, nos passando informações e ensinando sobre o mundo em que nasceremos
Como “cartões postais do mundo de fora”, exemplifica Paul, “os estímulos
recebidos por intermédio da mãe na gravidez informam o feto e o fazem produzir
respostas a perguntas críticas para a sua sobrevivência: vou nascer em um mundo
de abundância ou de escassez? É um mundo protegido e seguro ou de perigos e
ameaças constantes? A vida nesse mundo será longa e frutífera ou curta e
desprovida?”
Um estudo detalhado no livro de Paul exemplifica o quanto a aprendizagem
intrauterina pode ser significativa. Diz respeito aos efeitos da desnutrição
sobre os cerca de 40 mil fetos que estavam em gestação durante o ‘inverno da
fome’, provocado quando as tropas alemãs bloquearam o oeste da Holanda, em
1944, durante a Segunda Guerra Mundial.
Possíveis efeitos
Os efeitos da desnutrição sobre esses fetos, como se pode imaginar,
foram imediatamente notados. Houve aumento do número de natimortos, defeitos
congênitos, baixo peso ao nascer e mortalidade infantil. Mas também houve
efeitos que só foram constatados décadas depois, como maior incidência de
obesidade, diabetes e doenças do coração entre as pessoas gestadas durante esse
período de carestia.
Uma possível explicação para isso, segundo Paul, encontra-se na enorme
capacidade do corpo humano de responder ao contexto, procurando adaptar-se
fisiologicamente e sobreviver.
Diante da escassez de nutrientes, os fetos submetidos ao ‘inverno da
fome’ direcionaram os poucos recursos que tinham ao cérebro, adaptando-se
fisiologicamente e garantindo, assim, a sua sobrevivência em curto prazo. Mas,
devido à carência inicial de nutrientes, outros órgãos, como o coração e o
fígado, se fragilizaram e tornaram-se passíveis de mau funcionamento, sobretudo
quando submetidos a um mundo de abundância, para o qual não se encontravam
preparados. As doenças observadas nos fetos que sobreviveram a esse regime de
fome podem ser encaradas, portanto, como respostas inadequadas a um contexto
que não reflete as aprendizagens ou os padrões estabelecidos inicialmente,
argumenta a autora.
Estudo com 1.700
grávidas que tiveram experiências traumáticas durante o atentado terrorista de
11 de setembro de 2001, nos EUA, mostra que seus filhos apresentavam sintomas
da síndrome de estresse pós-traumático um ano após o episódio. (foto: Robert
Linden/ Sxc.hu)
Outro estudo relatado por Annie Murphy Paul diz respeito a 1.700
grávidas que tiveram experiências traumáticas durante o atentado terrorista de
11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos, e ao fato da análise realizada
nessas gestantes e em seus filhos um ano após o episódio ter revelado a
presença de sintomas da síndrome de estresse pós-traumático também nos
recém-nascidos.
Considerando-se a perspectiva da ‘origem fetal’, a explicação para o
ocorrido nesse caso, assim como no episódio do ‘inverno da fome’, também é
reveladora e, de certa forma, surpreendente. Os pesquisadores acreditam que,
provavelmente, os fetos de mulheres grávidas que experimentaram o trauma do
atentado foram “informados por suas mães” e se prepararam para um mundo no qual
a prontidão, característica do estresse, poderia ser útil à
sobrevivência.
Com base nas pesquisas e discussões sobre ‘origem fetal’, é possível
perceber que as informações que recebemos de nossas mães ainda no útero
podem ser positivas ou negativas
Pense por um instante: características típicas da síndrome do estresse
pós-traumático, como a hipervigilância, o distanciamento psíquico e a
irritabilidade, podem ser relativamente úteis em um mundo ameaçador, que requer
níveis de atenção máximos, mas não se configuram aprendizagens relevantes em um
mundo relativamente seguro.
Nesse contexto, ao contrário, essas características seriam
desnecessárias ou mesmo representariam um alto custo para quem as
possuísse – custo que os pesquisadores consideram que está sendo
cobrado dos fetos que passaram pelo ‘inverno da fome’, assim como dos que
‘vivenciaram’ o atentado de 11 de setembro.
Com base nas pesquisas e discussões sobre ‘origem fetal’, é possível
perceber que as informações que recebemos de nossas mães ainda no
útero podem ser positivas ou negativas. Melhor dizendo, podem ser
adequadas ou não diante do contexto em que nascemos ou em nossa vida
futura.
Mas tão importante quanto isso é começarmos a nos dar conta de que nossa
visão sobre quando e como se dá a aprendizagem precisa ser ampliada. Os dados
de pesquisas têm nos mostrado que, de fato, aprende-se sempre, inclusive, antes
de nascer.
Vera Rita da Costa
Ciência Hoje/ SP
http://cienciahoje.uol.com.br/alo-professor/intervalo/2014/03/quando-comeca-a-aprendizagem
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